domingo, 31 de agosto de 2008

DO CAOS NOSSO DE CADA DIA, NOS LIVRAI HOJE


Após uma semana em meio ao burburinho de uma vibrante redação de jornal, o indomável Diário da Manhã, comemorei o domingo de folga à maneira de todo trabalhador. Dou apenas coerência à minha trajetória de quem, aos sete anos, vendia frutas e verduras para aumentar a renda familiar. Bendita infância de quem assimila o valor do trabalho honesto em tão tenra idade.
Bem, conclui: se vou descansar no domingo, nada melhor que pagar a promessa de visitar um amigo de longa data a igual ausência, pelo meu temor de que visita sem agenda prévia sempre atrapalha. Terei para ele a desculpa de que, por falta de tempo, só poderia fazê-lo hoje, domingo.
Saí de casa com o fervor religioso de quem, antes de ir para as ruas engraxar sapatos, aos domingos, tinha que ir à missa. Adaptei o credo da infância provinciana às agrúrias urbanas de hoje. “Do caos nosso de cada dia, nos livrai hoje”. Domingo, poucos carros circulando, a desobstrução da T-63 na ordem do dia, que problema teria eu de sair de um extremo da cidade (lado sul) indo rumo oeste, impregnar-me dos bons conhecimentos de um amigo, caráter sem jaça e intelectual cinco estrelas? Animal raro em paisagem densa de outros bichos.
Quando me vi em pleno início da T-63, sentido leste-oeste, não tive dúvidas: todos os motoristas de Goiânia tiveram a mesma idéia, não sei se embalados pela mesma crença de que domingo poucos gostam de sair de casa.
Melhor é concluir que nunca mais “nunca aos domingos”. Todos os dias são iguais. O caos no trânsito é nosso onipotente atestado de que somos visceralmente urbanos. Talvez esteja na hora de se criar um slogan para a cidade: “Goiânia precisa parar”.
São Paulo que abraçou o bordão “não pode parar”, já parou.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Escrevendo pelas orelhas

Cia das Letras, 192 págs.


Nem Mahmoud Ahmadinejad, o lunático presidente iraniano que insiste em negar a existência do holocausto, pode negligenciar o fato de que, ao menos nas artes, o suplício dos judeus resultou em um acervo considerável de bons trabalhos. Recentemente, a tentativa da escola de samba Viradouro e de seu carnavalesco Paulo Barros de retratar na avenida o que se passou nos campos de concentração nazistas foi parar nos tribunais, e o desfecho se deu com a justiça proibindo carnaval de rimar com Solução Final. Na literatura, são fartas as obras alusivas ao tema. O irlandês John Boyne, em O menino do pijama listrado, foge do que parece ter sido a regra desde então por eleger como protagonista não um judeu, mas um garoto alemão filho de um oficial para quem o Führer tinha “grandes planos”. Depois de deixar Berlin, o garoto Bruno se depara com uma cerca diante de sua casa, e a partir daí a história se desenrola.

A narração em terceira pessoa com a perspectiva infantil municia Boyne de uma crítica ao absurdo do contexto nazista, mas a tentação a que sucumbe o autor de falar através da criança direciona o leitor a reflexões nem sempre tão verossímeis quando se trata do universo de um menino de nove anos. Tem-se a impressão de que a sensibilidade de Bruno, personagem moralmente quase intocado pela doutrinação fascistóide que o cercava, é meticulosamente arquitetada, embora este seja um elemento imprescindível para história. Os sofrimentos dos prisioneiros submetidos às sevícias e aos pijamas listrados são suavizados e em muitos trechos agravados pela ótica infantil.

Há um projeto já em andamento de adaptação do livro para o cinema. Pode surgir daí uma obra de valor e que pela perspectiva do menino alemão será posta em paralelo com livro (também tornado filme) O Tambor, a narração fantástica do Nobel de 1999 Günter Grass. Poderá ser ainda um contraponto a Josué, o menino judeu de A vida é bela do estrepitoso Roberto Benigni, mais famoso por aqui por ter levado a estatueta de ouro que por pouco não fica com Central do Brasil.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

UM NÃO PEDAGÓGICO

Continuo não entendendo a razão de tanta gente criticar o STF por não ter atendido à expectativa dos juizes que, através da AMB, tentaram barrar a candidatura dos “fichas sujas”. Bem, até onde alcança a vista desse modesto eleitor aqui, o papel de sanear a representatividade política cabe ao eleitor. Basta que ele exerça, de fato e de direito, seu poder de cidadão. Ora, o que o STF fez, reitero, é delegar mais poderes ao eleitor. É ele é quem tem a obrigação cívica de filtrar o ingresso dos “representantes do povo” nas casas legislativas. Não basta votar, é preciso saber em quem votar. O não do Supremo foi o que se pode chamar de ato pedagógico.

VOU DE POMBO CORREIO

Nunca se falou tanto em grampos telefônicos. Nunca as hipóteses e suposições foram tão respaldadas em fatos concretos. Do STF aos menores escalões do poder público; das grandes às pequenas empresas e dos mais aos menos influentes profissionais nas diversas categorias estão todos sob o risco da bisbilhotagem. Há um certo fascínio na arte de xeretar a vida alheia.

Já tomei minhas precauções. Tenho um amigo columbófilo e já disponho de um pombo correio. Antes, obtive um atestado de que a ave é absolutamente confiável. Minha dúvida agora é sobre a lisura do atestado.

VAMOS E CONVENHAMOS

De fato, a pluralidade de candidatos fortalece a democracia e também o livre debate. A existência da oposição é imprescindível. O conflito civilizado das correntes de opinião é vital. Tudo bem, mas sejamos práticos: transformar a candidatura Íris Rezende em massa de pão servirá a quem? A candidatura de Íris atingiu aquele estágio de uma massa bem sorvida de fermento. Quanto mais se bate, mais ela cresce.

TUDO TEM LIMITE

Concordo. O debate é livre tanto quanto é livre o candidato para fazer suas propostas, mas sem exagero. Só falta algum candidato garantir ao eleitor casa, comida e roupa lavada. Vá lá que alguém ouse, mas se der direito a acompanhante, aí já é caso para cassação por configurar atentado aos bons costumes.


DNA UDENISTA

Muitos colegas de profissão me perguntam de onde vem tanto rancor que o suplente de deputado Sérgio Caiado (PP) demonstra ter pelo senador Marconi Perillo. O que sei é que Marconi, no governo, prestigiou Sérgio, inaugurando uma obra na sua principal base eleitoral no dia em que o ex-deputado comemorava aniversário. Isto sem falar no apoio de Marconi para Sérgio se eleger deputado ou assumir, como suplente.

ELE MERECE

Gostaria de dispor de condições financeiras para ajudar o jornalista/radialista Liorcino chegar à Câmara. Também gostaria de ver seus colegas de profissão defendendo sua candidatura. Como cidadão e como profissional Liorcino ajudará a elevar o nível do debate na Câmara. Conheço-o muito bem e o respeito como ser humano e como profissional.

SER CONSUMIDOR É UM MARTÍRIO


Depois do advento do computador, internet, banda larga, etc. etc. tivemos a doce ilusão que a vida iria melhorar. Quer saber? Tudo ficou pior. Penso em voltar para máquina de escrever. Não há um só dia que não nos defrontamos com o descaso da Brasiltelecom, do provedor Uol. Enfim, estamos nas mãos dos cartéis do setor. Deixei de ter tv a cabo por não suportar o desrespeito da empresa. Que liberdade temos para produzir se dependemos do humor e da boa vontade dos fornecedores dos serviços básicos para que possamos trabalhar com a informática? Eles aumentam os preços das tarifas quando querem, nos atendem quando querem e nós ficamos com a cara de palhaços. Quanta ilusão a nossa! Que liberdade é essa? Começo a perceber que a velocidade da internet ficou mais lenta. Talvez seja mais um artifício para você adquirir a outra, a mais veloz. Com o tempo ela também fica mais devagar, e assim teremos que optar pela outra, mais veloz, mais cara naturalmente.

É provável que esse blog saia novamente e temporariamente (se Deus o permitir) do ar, até que eu arranje um outro provedor. A UOL descumpriu o contrato e aumentou a mensalidade. Não vou aceitar. Tentarei o diálogo, se e quando conseguir um contato telefônico. Quanta ilusão imaginar que o direito do consumidor é respeitado! Nunca foi nem nunca será.

sábado, 16 de agosto de 2008

SOLUÇÃO À BRASILEIRA

Essa lei que amplia o tempo em que a mãe, empregada, deve ficar com o filho recém-nascido tem dois objetivos: estreitar o mercado de trabalho para as mulheres e forçar o controle da natalidade. Se a mulher quiser mesmo um emprego deverá desistir de se engravidar. Se a mulher quiser ser mãe, deverá desistir de procurar emprego.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

DE VOLTA À REALIDADE



As pesquisas estão hoje para a tomada de decisões políticas assim como a bússola estava para os argonautas que singravam os mares nunca dantes navegados. Nada se faz sem antes ter o balizamento das causas e conseqüências de cada ato, aferido pelas indispensáveis pesquisas. Só os marinheiros de primeira viagem, no deslumbramento do poder, preconizavam o desmonte de uma coalizão que, no movimento oscilante das marés políticas, os trouxeram à tona após longo período de submersão.

Ela, a pesquisa, está no cerne de um movimento de refluxo que, no momento, empresta à base aliada as feições de uma frente harmônica, atenta aos movimentos expansionistas do PMDB. Ainda pelas pesquisas, o possível recrudescimento da oposição em fornidos colégios eleitorais tem efeito duplo: motiva o partido de Íris a olhar com otimismo 2010 e fornece elementos indutores para a reunificação de uma base, ainda hegemônica, até há pouco fragmentada e sob a ameaça de irreversíveis cisões.

O refluxo é patente. Os dois principais nomes da base – o governador Alcides Rodrigues e o senador Marconi Perillo – passam a ter a clareza de que, divididos, fornecerão grandes manchetes aos jornais, mas, principalmente, darão aos adversários o melhor dos cenários para um sucesso eleitoral na disputa pelo controle do Executivo estadual.

Então, não tenhamos dúvidas, as pesquisas, sejam quais forem seus resultados, determinam as tomadas de decisões políticas e retiram dos mais açodados a tendência ao endurecimento de posições ditadas por interesses mais imediatos ou menos abrangentes do ponto de vista da aglutinação das correntes, adversárias no varejo e aliadas no atacado.

Uma delas, feita sob medida e para efeito de se palmilhar com boa margem de segurança um caminho definitivo, teve resultado impactante no desmonte de um cenário de fantasias para a exposição de uma crua realidade: dividida, a ainda cognominada base aliada seria mandada ao limbo; reunificada em torno da liderança que tem fortíssimas chances de vitória em 2010, todos se salvam. Uns, porque dispõem de forte cacife político; outros, porque se beneficiam pela circunstância de que têm poder de barganha para sentarem-se à mesa de negociações.

Resultados surpreendentes da pesquisa fizeram arrefecer o impulso desagregador de grupos que condicionavam sua sobrevivência ao sepultamento das legítimas lideranças com as quais comungam poucas afinidades e, por paradoxal que pareça, sem elas deixariam de existir. Nada como a alternância nos cargos de comando para que se veja pelo halo da transparência quem tem capacidade de liderança e quem tem pouca habilidade para lidar com as contradições inerentes ao exercício do poder. Não fosse pela tolerância de um e experiência do outro, nem a orientação da bússola somada ao fascínio dos números das pesquisas salvaria a base aliada de um naufrágio eleitoral.

O silêncio dos fariseus e o esforço conjunto que se processa em nome de uma definitiva unificação das correntes evidenciam a força dos números de uma pesquisa que devolveu a todos o senso da realidade. Só há esperança de sobrevivência política de todos, ainda que adversários circunstanciais, através do fortalecimento de uma liderança politicamente sólida, popularmente incontestável. Foi esse o dado que mais avultou no conjunto dos números surpreendentes de uma bem guardada pesquisa. Mais do que a surpresa, os números revelam força de demover as vozes dissonantes e desestimular as ações desagregadoras. É a prevalência do bom-senso motivando o consenso.


terça-feira, 12 de agosto de 2008

A CRÍTICA E A RESSALVA

Em meu e-mail muitos aplausos à nota “Opte pelo expurgo” . Vou me reportar tão-somente a quem discordou. Deolinda, obrigado pela crítica. Só ressalto que focalizei os dois candidatos do ponto de vista moral, na condição de homens que exerceram funções públicas e nunca foram acusados de improbidade. Não tenho dúvida do fundamento de suas críticas que, rigorosamente, não os questionam moralmente. Reitero que ressaltei as qualidades deles e tenho absoluta certeza de que Torkarski e Kleber darão substancial contribuição à melhoria da imagem da Câmara Municipal. São políticos probos e competentes.

domingo, 10 de agosto de 2008

OPTE PELO EXPURGO

Nem tudo está perdido. O eleitorado tem a oportunidade de contribuir direta e decisivamente para melhorar, ou melhor, descontaminar a representatividade da Câmara Municipal. Os ex-deputados Fábio Torkarski e Kleber Adorno são candidatos a vereador. Ambos têm inúmeras qualidades para representar os interesses da sociedade. Ademais, são donos de densa bagagem cultural, são políticos diferenciados pela biografia que os engrandecem e pelo trabalho que já prestaram nas diversas funções públicas que exerceram.

Desnecessário é dizer que a Câmara, assim como a Assembléia, têm sido vítima de um contínuo processo de empobrecimento de seus quadros, sejam pela baixa qualificação da maioria, seja tendência de transformar o mandato popular em instrumento de benesses familiares. Isto para não se falar naqueles parlamentares ligados a lobbies com interesses ilegítimos. Torkarski e Kleber darão partida a um processo de reversão da Câmara, devolvendo-lhe a credibilidade. Não só eles, claro, mas eles principalmente. A presença de ambos na Casa já é o início de um expurgo dos desqualificados, levando-se em conta que serão duas cadeiras a menos à disposição de eventuais edis imbecis.

POBRE CLASSE MÉDIA

Pelos critérios do Instituto de Pesquisa econômica Aplicada a classe média se expandiu horizontalmente. Considerar classe média o cidadão cujo salário representa pouco mais de mil reais por mês é apenas uma fantasia matemática capaz de fazer o governo do PT se sentir o salvador da pátria.

Pura ilusão, quando se sabe que o salário mínimo no Brasil é inferior aos países cujo PIB é insignificante perto do nosso. Sabe-se que Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai pagam salários mínimos muito superiores ao dos brasileiros.

STF DÁ FORÇA AO VOTO

Está havendo muita confusão sobre os chamados candidatos “ficha suja”. Não discordo da decisão do STF, pois só o cidadão julgado e condenado deve ser banido de seu direito de disputar eleições. Sou contra igualar cidadãos. Por exemplo: Paulo Maluf não pode ser colocado na mesma condição de um cidadão que é acusado de improbidade por um adversário político. A decisão do STF dá ao eleitor a autoridade e legitimidade para que seja ele, somente ele, do alto de sua soberania de cidadão livre para votar, a instância julgadora.

Ora, ora, o que o Supremo faz é reforçar a força do voto soberano do povo. Se o povo não se informa e não vota pensando nos interesses da comunidade, acaba pagando o pato por votar segundo critérios fisiológicos, ilógicos e irracionais. Em política, tudo que se faz tem que se levar em conta o interesse coletivo, não o individual, ou familiar, ou grupal. É o eleitor que precisa ser esclarecido, por sua própria conta, para saber discernir.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Escrevendo pelas orelhas.

Ed. UFRJ/ 385 pgs.



Na quiromancia moderna, diariamente exercitada nas páginas de jornais, ou nos papers e teses acadêmicas, economistas e sociólogos veladamente disputam o posto de maiores portadores dos instrumentos racionais de leitura e interpretação da sociedade. A confluência entre as duas ciências, entretanto, paira acima das mesquinharias corporativistas. Na obra de Max Weber, que por direito é um dos pais fundadores das ciências sociais, a simbiose entre os dois campos foi tanta que chega a dificultar a vida de seus biógrafos mais criteriosos. Isso em razão do afinco com que o pensador alemão se dedicou à tarefa de estruturação de uma Sociologia Econômica. Os pressupostos dessa empreitada epistemológica jamais obedeceram a uma filiação exclusiva a qualquer um dos dois lados.

Bem antes de concluir A ética protestante e o espírito do capitalismo, que restaria como seu mais badalado legado, Weber se dedicou a um levantamento minucioso, dentre os quais se destaca História geral da Economia, livro resultante de curso ministrado na Universidade de Munique entre 1919-1920. Apesar das evidências que guiam estudiosos do trabalho de Weber nessa direção, o texto de Richard Swedberg, Max Weber e a idéia de Sociologia Econômica, tem sua dose de pioneirismo por centrar no compartimento de matriz econômica, não raramente tratado como adendo do trabalho sociológico weberiano. Professor na Universidade de Estocolmo, Swedberg situa o trabalho de Weber, formatado metodologicamente a partir da idéia de ação social, como uma tentativa contínua de localização das esferas de influência atuantes sobre os indivíduos, dentre elas a de cepa econômica.

Deliberadamente, todo o arcabouço de Weber rejeita o excessivo determinismo econômico de Marx, assim como não empresta a menor importância à teleologia do autor de O Capital, que insistia na idéia de um capitalismo com os dias contados. À sociedade Sociológica alemã, em 1910, Weber inclusive chega a dizer: “(...) a visão do materialismo histórico – adotada por muitos – de que o fator econômico é, de certa forma, o ponto máximo da cadeia causal está inteiramente desacreditada como proposição científica” (apud p. 108).

A ênfase do autor, como não poderia deixar de ser, não visa privilegiar a economia como ponto sobressalente da obra de Weber, mas soube dimensiona-la como um fio condutor a perpassar desde a sociologia da religião até a importância do estudo do direito entre os trabalhos pensador alemão.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Escrevendo pelas orelhas

Zahar/ 131 pgs.

Não é novidade a idéia de Shakespeare como o lídimo puxador (que o falecido Jamelão não nos ouça!) de toda uma linhagem européia de dramaturgos. Tampouco a imagem do gênio a perturbar modelos estéticos consagrados pode reivindicar pra si a condição de inovadora. Visto assim, panoramicamente, o texto de Pedro Süssekind, Shakespeare – O gênio original, apenas repisa láureas já há muito concedidas ao autor de Hamlet. A ênfase do livro, entretanto, está muito mais nas repercussões do autor inglês na literatura alemã, gerando por vezes a branda impressão de que a obra de Shakespeare é somente o ponto de partida do autor. De gênio para gênio, Süssekind traça uma trajetória tão linear da influência de Shakespeare nos trabalhos de Goethe que até ressentiria qualquer chauvinismo literário germânico.

As construções em torno da mitologia do gênio no meio artístico são também suscitadas por Süssekind. Diuturnamente, o autor destrincha o movimento Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto, em português, em alusão ao título de uma peça de Friedrich Maximillan klinger), anunciador do Romantismo na Alemanha, e que mesclava uma veia filosoficamente iluminista com a rejeição ao padrão do Classicismo. Nos termos de Otto Maria Carpeaux, o lendário intelectual austríaco radicado no Brasil, encontra-se a síntese do mote de Pedro Süssekind: a literatura alemã divide-se entre o antes e depois de Shakespeare (p. 34). Ao excursionar pela notória influência deste inglês nos debates e rumos da alta-literatura germânica, vê-se que nem mesmo o sentido de produção autêntica nacional, em franca construção entre os literatos alemães dos séculos XVII e XVIII, pôde prescindir do legado produzido além do Canal da Mancha. Guardadas as devidas proporções e distorções, os arranjos artísticos ocorridos no Velho Continente quase desmerecem a criatividade inovadora dos modernistas tupiniquins de 1922. Por essas lentes, deglutir a cultura estrangeira a fim de processar o elemento nacional, conforme apregoava com fervor Oswald de Andrade, já era coisa muito bem assimilada pelos artistas do passado.